20.1.13

capítulo 1 (Janeiro) - II


Hoje, por incrível que pareça, pousei os pés para fora de rancorosa porta da minha casa. Decidi dar uma volta, para pensar naquilo que realmente me faz bem.. pensar em tudo o que perdi e tudo aquilo que ainda me pertence. A verdade é que já não tenho muito, mas tudo o que tenho é valioso, começando pelos meus livros e acabando nas minhas amizades de há muitos anos. São as coisas que me põem de pé, quando eu só quero deitar-me no chão e por ali ficar, sentindo o frio do chão a contrastar com o calor humano da minha face. Sou muito sonhadora, e desejo que todas as histórias que se inserem nos livros que leio durante os meus dias se tornem realidade.. desejo ter o que todos merecemos, mas nem sempre é assim que funciona. Bem sei que não é assim.. mas talvez o fim do meu relacionamento com Bryan me tenha ensinado que o destino traz algo melhor para mim. Apesar de acreditar a cinquenta por cento nessa circunstância. Depois de muito caminhar pelas ruas de Nova Iorque, segui um pequeno caminho de pedra e parei num daqueles bancos de jardim. Apenas ali me sentei e repus as minhas ideias, tentando esquecer o facto de estar sozinha. Lembrei-me então que havia uma pessoa na minha vida, muito importante, mas que eu por tempos me esqueci da sua existência. Como pude eu ser capaz disto, perguntam-se vocês. Mas é isto que o amor nos faz, faz-nos esquecer as boas pessoas que temos do nosso lado, cega-nos os olhos ao redor dos nossos corpos e dali em diante apenas vemos a nossa alma gémea. Ou o que é suposto ser a nossa alma gémea. 
Liguei para Amber, a minha irmã mais velha. Há um ano e alguns meses que não lhe dava noticias, nem a visitava. Ela está casada com um homem, particularmente rico, na Inglaterra. A minha família habita um pouco por todo o lado, é verdade. Há muito que não ouvia a sua voz, rouca por cansaço do que a vida nos traz, mas sempre muito alegre. Apenas lhe pedi perdão pelas vezes em que tive oportunidade de lhe dizer uma pequena palavra de saudade, mas que nem isso fiz. Após a conversa ter sido posta em dia, houve algo que a deixou gaguejar.
 Que se passa, Amber? Porque estás tão receosa?
 Há algo que tenho de te contar.. algo que me assusta, e tenho receio que te assuste também.
 Diz-me, sabes que podes dizer-me. Somos irmãs, sangue do mesmo sangue!
 Eu.. Gabs.. por chamada não vai adiantar muito. Gostava de te pedir um favor.
 Tudo o que tu quiseres.
 Por favor vem a Inglaterra, vem passar uns dias por aqui.. eu conto-te tudo quando chegares.
 Estás a assustar-me, Amber.. vou fazer as malas. Mais tarde compro o bilhete. Beijo.
Algo de estranho se passava naquela casa, naquela cabeça. Mas o que poderia ser? Estava esperançosamente curiosa! Assim que desliguei a chamada, corri para o meu quarto, abri algumas gavetas e comecei a transportar roupas do guarda-fatos para a mala. E claro, como não podia faltar, os meus livros tinham de vir comigo. Mala feita, tudo pronto.. apenas me faltava o bilhete de avião. Peguei nas chaves do carro e numa aceleração constante, lá fui eu para o aeroporto. Aquele segredo estava a matar-me por dentro, e confesso que me deixava assustada. Era muito receio para serem boas notícias..

11.12.12

capítulo I (Janeiro) - I


  Há cinco anos atrás não era a mesma pessoa. Vivia com Bryan e éramos felizes. Mas tudo tem um fim. Desde que ele saiu de casa, passei a fechar-me no escritório diante dos livros. Como se eles preenchessem esse vazio no meu coração. A Natalie está sempre a dizer para me distrair mais e sair com ela nos típicos sábados á noite. Mas o que posso fazer? É a única coisa que uma melhor amiga pode dizer, e agradeço todo o apoio que recebo dela, apesar de nem sempre me ajudar.
Não sou adepta dos bares e discotecas, onde todos encontram o seu par só por uma noite e mais tarde enfiam-se no hospital com um coma alcóolico de todo o tamanho, que até é bem merecido. Não preciso disso, não é um par em cada semana diferente que me vai trazer felicidade, não é assim que funciono. A Natalie é o meu oposto, todos os sábados conhece alguém novo. Acabo sempre por me confundir com tantos nomes! Não se preocupa com o amor, ela só quer curtir a vida. Porque acha que é isso que está destinada a fazer.
Natalie já esteve envolvida uma vez com Bryan. Foi antes de o conhecer, mas tenho de admitir que é deveras estranho pensar nisso. Bryan contou-me uns dois meses depois de nos termos conhecido. Foi sair com amigos e encontrou-a por acaso, acabando por se envolver mais tarde com ela. Mas não foi nada de mais para ultrapassar dessa noite, disse.
Há algum tempo que não falo com Bryan. Confesso que não estou habituada a estar longe de alguém com quem passei muito tempo. Passámos cinco calorosos anos juntos, aqui em Nova Iorque, em que nada nos deitava abaixo e o amor era uma imensidão. Ele deixou-me porque quis. Talvez se tenha fartado de mim, mas nunca admitiu. Apenas foi dito um "Desculpa Gabs, já não dá mais.". Não tive tempo de lhe perguntar porquê, ele saiu disparado, já com as malas á porta. Ainda hoje não lhe pedi justificações algumas e acho que não vou pedir. Não quero saber que o homem que mais amei, e temo ainda amar, está envolvido com outra pessoa e que todos os momentos que passou comigo não significaram nada mais que simples momentos. São apenas pequenos pensamentos presos na minha cabeça.
Os livros ajudam-me imenso. A minha mente muda de lugar, de tempo. Fico fora da minha vida durante algum tempo. Perdi Bryan há dois meses, e ainda não consegui esquecer nem um pouco do amor que sempre senti por ele. Nesses dois meses, não fiz nada mais senão ler. A minha vida simplesmente não anda para a frente!
Costumava passar o Natal com ele, bem juntos ao calor da lareira, olhando para as estrelas que iluminam a noite. Estava tão habituada a tê-lo por perto que me custou passar este Natal sozinha. A minha mãe não passa o Natal comigo desde os meus 17 anos, mudou-se para França e eu apenas fiquei em Nova Iorque para acabar os meus estudos e claro, para estar mais perto do  meu pai. Sinceramente, preferia estar mais perto dele do que dela. Apenas por razões de afinidade. O meu pai não pôde passar comigo este Natal, foi passar férias a Portugal com a sua namorada, Yasmine, e eu por aqui fiquei.. na esperança de receber uma simples carta, ou um toque na minha antiquada campainha de casa, desejando ver Bryan com um ramo de flores pedindo para voltar. Sonhos, que durante muito tempo foram reais!
Provavelmente ele deve estar instalado na casa da sua nova mulher, sentado no sofá, apertando-a contra o seu corpo e dizendo que a ama imenso. Ou talvez está na discoteca, tentando arranjar um par só por uma noite. A minha cabeça enche-se de perguntas quando não tenho uma resposta certa.. uma resposta que gostaria de ter.