Hoje, por incrível que pareça, pousei os pés para fora de rancorosa porta da minha casa. Decidi dar uma volta, para pensar naquilo que realmente me faz bem.. pensar em tudo o que perdi e tudo aquilo que ainda me pertence. A verdade é que já não tenho muito, mas tudo o que tenho é valioso, começando pelos meus livros e acabando nas minhas amizades de há muitos anos. São as coisas que me põem de pé, quando eu só quero deitar-me no chão e por ali ficar, sentindo o frio do chão a contrastar com o calor humano da minha face. Sou muito sonhadora, e desejo que todas as histórias que se inserem nos livros que leio durante os meus dias se tornem realidade.. desejo ter o que todos merecemos, mas nem sempre é assim que funciona. Bem sei que não é assim.. mas talvez o fim do meu relacionamento com Bryan me tenha ensinado que o destino traz algo melhor para mim. Apesar de acreditar a cinquenta por cento nessa circunstância. Depois de muito caminhar pelas ruas de Nova Iorque, segui um pequeno caminho de pedra e parei num daqueles bancos de jardim. Apenas ali me sentei e repus as minhas ideias, tentando esquecer o facto de estar sozinha. Lembrei-me então que havia uma pessoa na minha vida, muito importante, mas que eu por tempos me esqueci da sua existência. Como pude eu ser capaz disto, perguntam-se vocês. Mas é isto que o amor nos faz, faz-nos esquecer as boas pessoas que temos do nosso lado, cega-nos os olhos ao redor dos nossos corpos e dali em diante apenas vemos a nossa alma gémea. Ou o que é suposto ser a nossa alma gémea.
Liguei para Amber, a minha irmã mais velha. Há um ano e alguns meses que não lhe dava noticias, nem a visitava. Ela está casada com um homem, particularmente rico, na Inglaterra. A minha família habita um pouco por todo o lado, é verdade. Há muito que não ouvia a sua voz, rouca por cansaço do que a vida nos traz, mas sempre muito alegre. Apenas lhe pedi perdão pelas vezes em que tive oportunidade de lhe dizer uma pequena palavra de saudade, mas que nem isso fiz. Após a conversa ter sido posta em dia, houve algo que a deixou gaguejar.
— Que se passa, Amber? Porque estás tão receosa?
— Há algo que tenho de te contar.. algo que me assusta, e tenho receio que te assuste também.
— Diz-me, sabes que podes dizer-me. Somos irmãs, sangue do mesmo sangue!
— Eu.. Gabs.. por chamada não vai adiantar muito. Gostava de te pedir um favor.
— Tudo o que tu quiseres.
— Por favor vem a Inglaterra, vem passar uns dias por aqui.. eu conto-te tudo quando chegares.
— Estás a assustar-me, Amber.. vou fazer as malas. Mais tarde compro o bilhete. Beijo.
Algo de estranho se passava naquela casa, naquela cabeça. Mas o que poderia ser? Estava esperançosamente curiosa! Assim que desliguei a chamada, corri para o meu quarto, abri algumas gavetas e comecei a transportar roupas do guarda-fatos para a mala. E claro, como não podia faltar, os meus livros tinham de vir comigo. Mala feita, tudo pronto.. apenas me faltava o bilhete de avião. Peguei nas chaves do carro e numa aceleração constante, lá fui eu para o aeroporto. Aquele segredo estava a matar-me por dentro, e confesso que me deixava assustada. Era muito receio para serem boas notícias..
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